Pratos limpos
Luis Fernando Verissimo
Quando ouviu da Flávia que precisava conversar para botar tudo em pratos limpos, o Luis Carlos pensou:
- Iiiiih....
Pratos limpos. O que significava aquilo? Um recomeço, certo. Pratos novos. Pratos sem vestígios do que já tinha sido comido. Mas como era possível esquecer o que tinham comido? Esquecer o que acontecera entre eles? O que sujara seus pratos? Luiz Carlos não gostava da frase “pratos limpos”. Perguntou:
- Você quer dizer recomeçar do zero?
Flávia hesitou.
- Não exatamente...
Claro que não. Ninguém recomeça do zero. Pode-se tentar voltar atrás, mas nunca ao começo. Seria como recuperar a virgindade.
- O que eu quero dizer é... passar um apagador em tudo...
Passar um apagador? Então uma vida, duas vidas, uma vida a dois como a nossa, pode ser apagada como um erro no quadro negro?
- Eu só acho que a gente deveria tentar falar claramente....
Mas sem esquecer nada. Ao contrário: lembrar tudo. Botar os podres na mesa.
- Você está dizendo que a gente deve...
- Isso. Quebrar os pratos!
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Arleci dizia coisas como “pouco se me dá”. Um dia o Osmi comentou:
- Arleci, você deve ser a única pessoa no Brasil que ainda diz “pouco se me dá”.
- E daí?
- Daí que nada. Eu só acho engraçado.
- Por quê?
- Porque é uma coisa antiga.
E a Arleci encolheu e desencolheu os ombros várias vezes, justamente o gesto antigo correspondente à frase “pouco se me dá”.
O Osni ficou pesando se não seria melhor acabar o namoro ali. E ainda por cima, havia aquela obsessão dela por espremer seus cravos.
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A americana não entendia, “Pois sim” queria dizer não e “Pois não” queria dizer sim? Tentaram lhe explicar. “Pois sim” tinha o sentido de “imagine se alguém diria sim para isso”, e “pois não” o sentido contrário. Então o que queria dizer a palavra “pois”? Era complicado. E a americana ficou ainda mais impaciente quando, em vez de lhe darem uma resposta, disseram “Pois é...”. Até que também perderam a paciência com a americana e alguém sugeriu: “Perguntem a ela sobre a guerra no Iraque”.
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Antigamente, no futebol, certas frases se repetiam. Eram quase obrigatórias. Cada vez que um jogador dava um chutão para o alto, alguém na torcida gritava “Viva São João!”. Todos riam. Quando um time estava dominando a partida e o outro não conseguia sair da defesa, ouvia-se, inevitavelmente: “Aluga-se meio campo!”.
Todos riam. Quando um jogador estrava com violência num adversário, vinha o comentário: “Olha o recurso!”. Desta ninguém ria. Era uma grave constatação de que faltava recursos ao jogador faltoso, uma condenação da feiúra do futebol truculento e uma sugestão de que o jogador procurasse outra profissão. E embora já se xingasse a mãe do juiz, o palavrão em coro não era comum. Sempre havia os que, quando os palavrões – os “nomes feios” – começavam a voar, olhavam em volta e diziam “Olha as famílias...”. Hoje, claro, as famílias lideram o coro.
Domingo, 14 de agosto de 2005.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.